11.12.07

 

Controvérsias Lusitanas Pós-Modernas : O Acordo Ortográfico e Outras…



Nos últimos dias, certos temas têm alimentado, mais que o normal, as pequenas controvérsias lusitanas : da ortografia, ao cinema, à «comemoração» dos 200 anos das Invasões Francesas, à renovada presença de Mário Soares na TV, ao fiasco do Ensino, tema que começa a ser de permanente discussão e se assume já como incontestado pesadelo colectivo, à Economia que retoma-não-retoma, à Cimeira Euro-Africana de Lisboa, histórica, no dizer hiperbólico de Sócrates, enfim, tudo isto constituindo um feixe de problemas que nos enche a vida de negrume, sem, ao menos, esclarecer o nosso pensamento.

O olhar optimista adoça os cambiantes, desvaloriza as sombras, as penumbras e procura ampliar as esparsas zonas de claridade; vê indícios de progresso onde menos se adivinha e exorciza os que teimam em opor-lhe motivos de escândalo, de vergonha, de falta de orgulho colectivo, etc.

Esta altercação entre visões optimistas e pessimistas é uma constante temporal, especialmente entre portugueses, muito inclinados, de seu natural, a carpir mágoas, reais ou inventadas.

Talvez até se possa dizer que numerosos compatriotas nossos encontram certo prazer na expressão pessoal de uma vincada melancolia, quiçá atávica, superiormente celebrada no plano estético e literário por muitos dos escritores nacionais, entre eles, sem dúvida, Almeida Garrett, naqueles formosos versos iniciais do seu poema «Camões» :

Saudade, gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho…

Esta antiga prática ameaça tornar-se porventura doentiamente interminável, sempre reanimada pelo lado negativo, forçosamente pessimista.

A realidade, porém, contra todas as apostas mais risonhas, mostra-se renitente em abrir-nos a visão optimista. Passada a euforia da adesão à Comunidade Europeia, há mais de uma década que os Portugueses carecem de motivos reais para se sentirem confiantes no futuro, embora, naturalmente, sempre haja quem persista em remar contra a maré, na esperança de que, à força de tanto crer no ansiado milagre, ele acabe mesmo por verificar-se, para nosso gáudio colectivo.

Governos sucessivos constituídos por gente, técnica e eticamente medíocre, delapidaram consideravelmente a nossa já debilitada credulidade, por séculos de pessimismo militante. Como cidadãos de convicções, se o queremos continuar a ser, temos, por isso, de descobrir reservas de ânimo capazes de nos impelir à acção redentora.

Quando agora vemos regressar a polémica do Acordo Ortográfico, passados 20 anos do seu início em 1986, depois de se ter assinado o último Acordo, em 1990, o primeiro que contou com a assinatura dos representantes dos novos países africanos de expressão oficial portuguesa, sentimos que algo de requentado nos está a ser servido.

Gente que, quotidianamente, comete os mais despudorados atentados à língua de Camões, que fala e escreve com emproado desleixo, surge agora muito excitada a propósito de uma consoante muda que poderá vir a perder-se, por via de mais uma reforma ortográfica de pendor foneticista, que pretende, de novo, aproximar a escrita da fala, como primeiro generalizadamente intentou o nosso eminente filólogo Aniceto Gonçalves Viana, há cerca de 100 anos, na primeira grande reforma ortográfica que se operou entre nós, sem qualquer consulta das opiniões dos estudiosos brasileiros, que já então os havia e bons.

Ressalve-se, contudo, nesta observação às gentes relapsas no tributo à língua pátria, o caso de Vasco Graça Moura, prolífico autor e exímio cultor do idioma, que intervém, com costumado denodo, nestes assuntos, por vezes, de forma algo apaixonada, mas, quase sempre, com acertado sentido de oportunidade.

A VGM, compreensivelmente, ainda se pode tolerar alguma sobreexcitação na matéria, pela sua larga competência literária, comprovada em copiosa e variada produção, que toca pontos tão distantes como os que vão da poesia lírica, própria e alheia, com traduções esmeradas para português de grandes obras da cultura europeia, certamente exigindo da sua parte intenso investimento intelectual e afectivo, ao romance, ao conto, ao ensaio, etc., sem falar da sua antiga intervenção na Comunicação Social.

Aqui, no entanto, cabe reconhecê-lo, o seu enorme talento se vê, amiúde, inutilmente aplicado, sem glória nem proveito, nas sucessivas figuras políticas menores que se empenha em defender, julgando VGM, porventura, com esse seu propósito, cumprir acto de curial cidadania ou de devida solidariedade partidária.

O debate sobre qualquer tema relativo à Língua Portuguesa abarca inevitavelmente pontos fundamentais da nossa identidade cultural, que estão obviamente muito para lá da mera questão ortográfica. Esta última, como se sabe, assenta em base convencional sobre que, periodicamente, acorda gente reputadamente conhecedora dos complexos fenómenos linguísticos e literários que a enformam.

É verdade que, neste Acordo de 1990, Portugal cede mais do que o Brasil, que passará a ficar numa situação mais vantajosa para disputar mercados livreiros, nomeadamente os dos países africanos que seguem a Norma Ortográfica e Gramatical Portuguesa, até ao presente, seus habituais e importantes clientes.

É verdade também que, neste capítulo, quem permanece em falta, desde 1945, é o Brasil, cujos membros da sua delegação técnica – Pedro Calmon, Ruy Ribeiro Couto,
Olegario Marianno e José de Sá Nunes – competentes conhecedores do Idioma, debateram, aprovaram e assinaram o texto do Acordo então celebrado.

Depois, inesperadamente, as suas instâncias políticas superiores não o haveriam nunca de sancionar, na sequência de uma discussão sobrevinda, em solo brasileiro, que acusava o Acordo de veicular uma versão linguística demasiada lusitanista, reacordando, em certa elite brasileira, velhos sentimentos anti-portugueses.

Esta corda da tradicional divergência linguística, quando beliscada do outro lado do Atlântico, desperta sempre sons de forte antipatia contra descendentes do Senhor El-Rei D. João V, figura particularmente visada, nessas erupções de animosidade, pelos nossos frequentemente exaltados irmãos brasileiros.

Dir-se-ia, a este propósito, que, nessas súbitas manifestações de desamor para com os seus antepassados, os nossos irmãos no Idioma, se comportam como se tivessem sempre sido eles os legítimos proprietários das vastas regiões colonizadas pelos portugueses e não as diversas tribos índias primitivas que por lá viviam, tudo indica com plena satisfação, curtindo o seu profundo sono civilizacional, abruptamente interrompido com a chegada dos companheiros de Cabral.

Mas compete aos que se julgam mais ponderados dar exemplo de paciência e bonomia, obliterando na sua memória passados episódios desagradáveis, para voltar a apostar em novas oportunidades de entendimento, na língua comum, como em outros campos da cultura, em geral.

É conveniente que a Língua Portuguesa disponha de uma forma ortográfica única, ainda que esta tenha de contemplar algumas centenas de termos com grafia dupla, aceitar a queda de algumas consoantes mudas, não de todas, note-se, para congraçar sensibilidades e orgulhos próprios históricos, afinal, obrigatório e pequeno, para alguns, preço que pagaremos, sobretudo nós, portugueses, para se alcançar esse desiderato comum.

Mas, não nos iludamos, que com isso não passaremos a falar da mesma maneira. Mais importante que a Ortografia, para a coesão de uma Língua, é a sua Sintaxe, e essa infelizmente continuará com as diferenças conhecidas, que se acentuaram bastante ao longo do século XX, trilhando já hoje um caminho perigosamente divergente para a desejável unidade do idioma, sobretudo na sua expressão oral e coloquial, como a profusão de novelas brasileiras na nossa TV à evidência nos tem demonstrado.

Nos próximos artigos continuarei com este interessante tema.

AV_Lisboa, 11 de Dezembro de 2007

Comments:
Isso remete-me para, vá-se lá saber porquê, o plano da virgindade. Uma mulher não deixa de ser mulher por já não ser virgem.

(com a língua acontece o mesmo) não?
 
Sou brasileiro com raizes lusas e indigenas e adoro minhas origens (preponderantemente) lusitanas e (minoritariamente) americanas. Meu comentario nao é "contra" o Brasil e também nao é "a favor" de Portugal. É, sim, a favor da lógica e do bom senso: acho que nao faz sentido a idéia de Portugal, que tem a primazia do idioma, "negociar" seu idioma com uma ex-colonia ou com quem quer que seja. Portugues culto tem que ter uma só matriz, que evidentemente é a européia. E viva Coimbra! (desculpem as muitas falhas de acentuacao pois o teclado que ora uso infelizmente nao está programado para o nosso idioma, escrevo desde país nao-lusófono).
 
Subscrevo quase na totalidade o comentário de Juvenal. Claro que não preconizo uma atitude de imposição da parte de Portugal relativamente à ortografia da língua, mas partilho da opinião de que Portugal não tem de pôr-se de cócoras perante o Brasil, lá porque são muitos milhões de pessoas. Em muitos aspectos da vida, e neste seguramente, tamanho não é qualidade.

O Brasil adoptou uma posição inaceitável ao tomar a iniciativa de alterar radicalmente a grafia de muitas palavras, sobretudo fazendo cair consoantes consideradas mudas e transformando acentos agudos em circunflexos, por exemplo, econômico, em vez de económico, só porque dizem as coisas de forma diferente.

Mas se andássemos a alterar a escrita do português ao sabor da fonética, havia de ser lindo adaptar a ortografia à forma como se fala em cada região de Portugal. Já ouviram falar os madeirenses, os açorianos, os alentejanos, os beirões, etc? Na Madeira passava a escrever-se “contnent”, nos Açores “filho da piuuta”, no Alentejo “compadri, isso na tê jêto nenhum”, na Beira “êxe axunto é muito delicado”, etc, etc.

É isto que querem os arautos dos acordo ortográficos? Agora, até já falam em ortografias alternativas. Só para agradarem ao Brasil. Tenham tento na bola. A haver algum acordo, a posição do Brasil tem de ser muito, mas muito, flexibilizada. Os portugueses que prezam a sua língua nunca aceitarão acordos ortográficos que se traduzam por uma simples cedência ao Brasil. Ao fim e ao cabo, a língua portuguesa foi inventada em Portugal.

Qual é o nosso papel no mundo se nem a nossa língua conseguimos manter e respeitar? Não sobrou nenhum gene daqueles portugueses de antigamente que souberam impôr e defender a independência do país perante todas as adversidades, incluindo a de um vizinho demasiado ambicioso? E que foram capazes de percorrer os mares do planeta como nunca antes ninguém tinha feito? Sobrou, com certeza. Nem todos os portugueses correspondem à imagem de cobardia que os nossos apatetados governantes têm dado no exterior.

Jorge Oliveira
 
O Português nunca teve a ortografia uniformizada; houve sim a tradição de escrever, primeiro como se falava (Idade Média e Moderna), depois seguindo os bons autores (séc. xix).
Não parece necessário uniformidade ortográfica para o Português. Pelo menos do ponto de vista estrito do idioma. Quanto ao comércio de livros...
Cumpts.
 
Meus Caros Leitores,

Agradeço as opiniões manifestadas.

Sinto-me algo dividido entre alguma cedência concertada e a defesa da originalidade portuguesa.

O retorno à ortografia de proximidade etimilógica parece já impossível.

De resto, fomos nós, com Gonçalves Viana, em 1911, e sem consultar brasileiros, que nos lançámos na reforma foneticista do idioma.

Para atingir a desejada unidade ortográfica, mesmo se incompleta, porque se manteriam certas grafias duplas, seria também necessário que o Brasil se empenhasse no ensino do idioma, que tem padrão e comporta gramática.

A actual atitude do Brasil a respeito da língua é demasiado desleixada, ainda mais que a nossa, que, no entanto, vai imitando aquela, facilitada com a proliferação de telenovelas da Globo, em Portugal, sem qualquer contrapartida para o nosso modo de falar, que o Brasil se recusa a entender, alegando a imperceptibilidade da fala lusitana, no que tem alguma razão, pela forma descuidada,trapalhona, apressada, como falamos, engolindo letras, omitindo ditongos, etc., numa verdadeira chacina verbal, que até nos torna, a nós, os nossos próprios filmes dificilmente perceptíveis.

Trata-se de um vício que se agrava, por falta de correcção, na leitura e na dicção das palavras, a ser imposta na Escola, degradada pela indisciplina e até pela incultura e impreparação dos próprios Professoras que nela operam.

Enfim, os males são muitos no Ensino da Língua, como, de resto, no das outras disciplinas, em particular das que exigem esforço, como a Matemática, a Física e a Química, esforço que os alunos de hoje parece não quererem fazer, por culpa de uma demagógica Pedagogia que lhes prometeu um Ensino eternamente divertido, ligeiro, indolor e, naturalmente, sem reprovações.

Bom, mas deverei guardar a argumentação para os próximos artigos como prometido.

Obrigado, pois, pela atenção concedida.
 
Corrijo «etimilógica» e «Professoras», no comentário apressado, por etimológica e Professores.
 
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